sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Saga Sem Nome - Zero

* texto originalmente postado em 2006 no Mundo de Oz III (http://mundodeoz3.blogspot.com).

** texto escrito inspirado na música "Operation: Mindcrime", do Queensrÿche.



O telefone toca. Ela atende. Parece fria e culpada. Um peso.
- Sim, eu sei. Agora? Não, não. Tudo bem. Eu vou fazer. Já disse que sim. Até lá então.
Desliga. Chegou a hora do fim.

O telefone toca. Ele desliga a tv e levanta-se para atender.
- Alô? Sim, sim. Engraçado, tive uma idéia sobre isso. Aham. Pode deixar, eu faço sim!
Desliga. Tenta entender. “Deja-vu, talvez...” Senta-se no computador. Liga o rádio. Começa a escrever. Finalmente, chegou a hora de começar.

- Acorde!
A morena. “Sonhos de novo.”
- É difícil manter você na realidade, hein!
- Desculpe.
- Tudo bem. Vamos ao que interessa. Feche os olhos. Relaxe.
Ele ouve as instruções. A voz dela vai se esvaindo aos poucos. Escuro. Uma luz. Ele caminha até ela e a atravessa.

Outro lugar. Um escritório. O homem de plástico e o doutor.
- Algo tem que ser feito da sua vida, garoto. Você não tem objetivos.
Tudo para. A voz da morena:
- Não, não. Vamos voltar mais.
Outra luz. Uma porta.
A loira. Grávida.
- Não sei mais o que fazer.
- Calma, você vai dar um jeito.
- Essa avalanche de pensamentos, essa exaustão... Acho que tô ficando deprimido...
- Você anda bem distante. Porque não vai ao médico?
“Não é uma má idéia.”

O consultório. O doutor.
- Nós fizemos os exames e devo dizer que estou impressionado! Nunca vi uma mente tão rica como a sua!
- Isso é bom ou ruim?
- Não existe isso de bom e ruim. Você só precisa dar um sentido a isso. Olha, pegue esse endereço. Eles podem te arranjar um trabalho onde sua mente será de muita valia.
- Obrigado.

O escritório. O homem de plástico.
- Nossa organização está presente em todo o mundo e em todas as mídias, você sabe. Por isso queremos que você escreva para nós.
- Somente escrever?
- Entenda. Temos uma visão do que é melhor para as pessoas. Unimos fins políticos com o poder da espiritualidade. Queremos o melhor para todos. Para isso, temos que fazê-los mudar a maneira de pensar. E é aí que entra você.

Casa. A loira. Um bebê.
- Você não parece muito feliz.
- Não.
- O que está acontecendo com você?
- Não sei. Não tô legal. A gente não tá bem e eu não tô feliz pelo que estou fazendo...
- A gente não tá bem faz um bom tempo...
- É... Acho que vou sair da organização.

Escritório.
- Você não pode sair. Sabe disso.
- Eu não vou ajudar vocês com isso mais! Não é certo!
- Olha. Detesto ter que fazer isso, mas você não me deixa escolha. Isso é mais importante do que você imagina. Mais importante que sua mulher e seu filho.
Ele parece não acreditar no que ouve.

Rua. Noite. Chuva. Ele olha pela janela. A loira e o bebê. Triste por ter que ir embora. “Melhor assim. Não quero por a vida deles em risco”.

Apartamento. Depressão. Desde que saiu da organização e ficou sozinho, as imagens passaram a ser mais intensas e cruéis. “Melhor dar uma volta.” Pegou um livro. “1984”. Saiu.
Trem. Ela. A ruiva. Paixão.

Apartamento. Melancolia. Ela na cama, ele na sala.
- O que houve?
- Nada.
- Não está feliz? Está fazendo o que gosta e ajudando pessoas... Voltou a escrever... Está com quem gosta...
- Algo está errado. Não sei dizer o que é.

Chuva. Ele no bar. Um velho calvo de óculos1 se aproxima.
- Difícil, né?
- O quê?
- Elas te consomem. Você tenta encontrar um fim para elas, já que não pode se livrar, mas não sabe se está dando o fim certo...
- Do que você tá falando? Quem é você?
- Ah, eu já fui chamado de mágico, louco, irresponsável, neurótico... Mas gostava quando me chamavam pelo nome daquele cantor! “Don't aks me, I don't know..”2. Eu já morri, já sumi, já fiquei deprimido assim, como você... Mas isso não importa! Eu sei das imagens, da organização.
- Como? Pensei que fosse secreta.
- Nada é secreto demais...
- E o que eu faço, velho?
- Primeiro, fique longe da televisão. E quando atender ao telefone e ninguém disser nada, desligue imediatamente. É assim que eles te hipnotizaram e ativam seu cérebro para escrever o que eles querem.
- Hahaha. Você é louco, velho!
- É, pode ser. Lembre-se apenas do que eu disse.
O velho caminha para a porta do bar.
- Ah, mais uma coisa. Cuidado com as ruivas.
E se foi, desintegrando-se na noite chuvosa.

Apartamento. Meio bêbado. Ela o espera.
- Por onde você andou?
- Fui pensar um pouco.
Sentou-se no sofá.
- Por que não assiste um pouco de tv. Você gosta...
Pegou o controle. O telefone tocou. Parou. Olhou em volta. O sorriso dela, combinado com os cabelos vermelhos o enfeitiçava. “O fim”.

Escritório. O homem de plástico parecia furioso.
- Não adianta. Estou fora!
- É a segunda vez que você faz isso conosco!
- Não tô nem aí!
Silêncio.
- Nós a mataremos.
Silêncio.

Apartamento. Corredor. Tiro. Corre. Abre a porta. Ela, a ruiva. Vermelho. Morta. Chora.

Galpão velho. Ele. Insano, confuso, perigoso. Polícia. O doutor.
- Podem levá-lo.
Eles o levam.

Hospital. Paredes esverdeadas. O doutor.
- Você não nos deu outra escolha. Eles acreditam que você a matou. E que teve um colapso. Por isso você está aqui.

Sozinho no quarto. Vozes. “O espelho. Atravesse o espelho!”. Levanta-se. Caminha. O espelho. Vai de encontro a ele. E o atravessa.

- Bem-vindo de volta!
“A morena”.
- Acabou. Você está de volta. Não tem mais hipnose. Nem drogas.
- Drogas?
- Eles te drogaram por um bom tempo, para intensificar as imagens. Por isso elas vinham e iam sem rodeios e te deixavam desorientado.
- E ela? Quem a matou? Eu?
- Nope! Ela não está morta. Tudo encenação sugestiva. Fazia parte do plano deles.
- Entendo... E agora?
- Não sei. Você quem decide.
- Havia uma loira. Um filho.
- Hum... Quem sabe um recomeço?
- E o velho...
- Sinto saudades dele...
- Quero saber o que ele fez com esse dom, maldição, sei lá o quê.
- Ele deu um significado maior...
- Então, é isso.
Levantou-se. Caminhou até a porta. Virou-se.
- Obrigado.
- Por nada. Então... O que vai fazer?
- Começar do zero3.
E saiu pela porta rua afora.

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Notas:

1 - adoro essas ferramentas narrativas, quando todo mundo acha que você é o protagonista, aí você aparece, hehe (sim, o velho sou eu!).
2 - "I Don't Know" - Ozzy Osbourne
3 - no post havia um link na palavra "zero" que levava ao novo blog até então, o Mundo de Oz Versão Zero!

...finalizando o ano e os posts repostados deste blog, vem aí a Saga Zero!

4 comentários:

Deborah disse...

ahhhhhh

entendiiii!!

hahah

muito bom. muito bom, mesmo.

Angyn disse...

eu gosto de ver tv, hum... :P
seria legal se vc combinasse os posts com imagens tb, além dos clipes... seria bem legal fazer associações enquanto os textos fossem lidos ^^

Notebook disse...

Hello. This post is likeable, and your blog is very interesting, congratulations :-). I will add in my blogroll =). If possible gives a last there on my blog, it is about the Notebook, I hope you enjoy. The address is http://notebooks-brasil.blogspot.com. A hug.

Edivaldo Rossetto disse...

pó... volta a postar ai...
eu sempre lia! rs