terça-feira, 6 de novembro de 2007

Saga Sem Nome - Dois

*texto originalmente postado em 2006 no Mundo de Oz III (http://mundodeoz3.blogspot.com).

**escrito inspirado na música "I Don't Believe In Love", do Queensryche.
experimente ler ouvindo-a. ;)



Ele caminhou lentamente pelo quarto. Procurava por ela. Um corpo estendido no chão. Vermelho. Sangue. Voltou para trás. Saiu do quarto. Uma mulher.
- O que você fez?!
- Nãããooo!

Acorda. Paredes azuis. Roupas azuis. Grades nas janelas. Velho. Ele levanta-se e caminha até o espelho. Parece bem mais sereno que antes.
- Eu me lembro agora.

Tentava ler um livro no trem. "1984"1. Não conseguia se concentrar. Fazia tempo que estava assim e estava cada vez mais insuportável manter-se ligado àquela dolorosa realidade. Sem mulher, sem filho, sozinho e falido. Tentava não pensar. Ler. "1984". Varreu o trem com os olhos. Pessoas. Vidas. Ela. Cabelos vermelhos.
- Legal esse livro.
- Oi? Ah, sim. Tô tentando ler, mas tá difícil...
- Ai, desculpa. Não queria atrapalhar.
- Hein? Haha. Não, não é isso. Eu tenho dificuldade de me concentrar. Minha cabeça é uma verdadeira bagunça inconseqüente.
- Todos nós somos inconseqüentes e meio perdidos de vez em quando.
Gostou dela.

Cena do crime. "Morta. Ela está morta! Quem fez isso? Quem me tirou isso? Não, não fui eu!" Desespero e dor.

Tentavam conversar a duas horas. Sem acordo. Parece que realmente havia terminado. O garoto divertia-se com o triciclo.
- Você pode vir vê-lo quando quiser. Afinal, é seu filho também.
- É só até eu por minha cabeça no lugar, entende?
- Parece que realmente você se tornou outra pessoa. Não te reconheço mais.
- Não ache que não está sendo difícil pra mim também.
- Queria poder te ajudar. Mas só você pode mudar isso.
Olhou nos olhos perdidos dele.
- Sempre estarei aqui. Ainda te amo.
- Não sei se ainda acredito em amor....

Correu pelos corredores do prédio até conseguir sair. Precisava de ar. "O que está acontecendo?" Chuva. Correu até onde dava e parou. Parou debaixo da chuva. "Preciso de redenção." Imagens em sua mente. Não sabia mais o que era real ou não. Caminhou pela chuva. "Exílio." E sumiu no horizonte escuro daquela noite confusa...

Eles pareciam realmente felizes. Mas algo o incomodava.
- Foi maravilhoso ter conhecido você.
A loira sorriu.
- Também adorei conhecer você.
- Sabe, é legal nós casarmos, termos nossa família... Mas eu não sei se estou preparado. Minha cabeça anda meio confusa.
- Como assim?
- Essas imagens, essas idéias, histórias... Às vezes elas me consomem.
- Por que não procura ajuda?

A ruiva2. Parecia que uma nova vida estava começando e então isso. Ela morre. Ele foge. Ele chora. É difícil perder alguém de quem se gosta sem dizer adeus. E a chuva ainda insistia em cair. Continuou caminhando rumo ao seu exílio, onde pensaria melhor no que estava acontecendo.

Acordou.
Paredes verdes. Claras. Janelas sem grades. Um hospital.
- Você realmente está me dando trabalho!
O doutor. Juntou as mãos. "Essa era a realidade?"
- Estou tentando te ajudar, mas parece que você não quer aceitar a realidade.
- Eu não sei nem o que realmente está acontecendo...
"Talvez isso também seja um sonho."
- Você cria ilusões e acha que são reais. Já disso isso. Mas se você continuar tentando escapar terei que ser mais persuasivo!
- Eu não vou mais ajudar você a conseguir o que quer! Já disse!
- O quê?!
"O envelope. Preciso abrir aquele envelope!"
O doutor fez um sinal. Um enfermeiro entrou e aplicou lhe aplicou uma injeção. Apagou.

Na tv, a apresentadora do jornal falava sobre o fim dos 10 dias de agonia de Oz e sobre o funeral célebre de Easy Eight. A enorme barriga não parecia incomodar a loira tanto quanto aquilo no que pensava. Ele, expressão triste, parecia já saber do que se tratava.
- Você está muito distante...
- Não é você. Esse trabalho novo está acabando comigo e minha cabeça...
- Lá vem você de novo com essa história.
- Você sabe que não é só "história". No começo eu criava minhas histórias e tal, mas agora elas vêem o tempo todo e não sei se estou sonhando ou acordado...

O homem de aparência de plástico não parecia nada satisfeito com aquela decisão.
- Não me olhe assim. Não posso mais fazer isso! Não vou mais ajudar você a conseguir o que quer! Está acabando comigo!
- E a nossa organização? Nossa ideologia?
- Já disse que não acredito no mesmo que vocês!
- E quem te ajudará?
- Como?
- Você sabe se esse momento é real ou não?

Entrou e sentou-se diante do médico. Era a quarta consulta, já.
- Como tem passado?
- Continuo mal. As fantasias parecem tomar cada vez mais espaço...
- Hum... Você sabe que tem um talento extraordinário, não sabe?
- Como assim? Não é uma doença?
- Não veja assim. Posso te ajudar e ainda conseguir um trabalho pra você.
- Preciso ficar bom. Vou me casar, sabe? Faço o que o senhor quiser.
O médico juntou as mãos.
- Já ouviu falar da nossa organização?

Ele realmente parecia feliz com a ruiva. Havia passado algumas semanas desde o encontro no trem. Poderia estar amando novamente?
- Você está me fazendo ter vontade de viver e melhorar, novamente!
- Hahaha. Não fale assim. Ei! Porque você não volta a escrever?
- Não sei. Eu parei exatamente por causa do que estava acontecendo... Perdi tudo, você sabe!
- Talvez você estivesse evitando ser quem você é.
- Como assim?
- Se viver no mundo de fantasia te faz feliz, por que fugir dele? Dane-se os outros! Eu gosto de você assim.
Olhou nos olhos dela.
- Você me impressiona cada vez mais, sabia?
- Volte a escrever para aquela organização da qual falou. Eles precisam de você...

Acordou. Ainda no hospital. Caminhou até a mesa. O envelope. Abriu. Um mini-cd. Olhou pelo quarto. Um cd-player. Botou o disco pra tocar. Uma voz feminina. "A morena".
- Você foi hipnotizado e esse é um cd que poderá ajudá-lo a quebrar a hipnose. Por favor, sente-se e tente relaxar. Tente não pensar em nada...



Notas:
1 - 1984, de George Orwell
2 - você perceberá que existem 3 tempos na história, meio divididos em cenas com a "loira" (passado distante), a "ruiva" (passado recente) e a "morena" (presente); ajuda a entender um pouco...

continua...

2 comentários:

Deborah disse...

meio confuso. mas acho que estou entendendo um pouquinho :]

diverte, acho que por causa da confusão mesmo.

beijo!

Angyn disse...

simplesmente amei essa parte... acho muito mais prático quebrar o tempo cronológico e transformá-lo num tempo subjetivo, pra mim fica mais confortável de escrever e ler
morena, ruiva e loira... e as gurias de cabelo verde, roxo? preconceito hihihi