quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Post Mortem - 1 de 2

- As três últimas "sagas do oz", têm uma particularidade: totalmente paranóico e e meio depressivo, eu passei dos limites da razão, bom senso e lógica. Resultado: três sagas que requerem um pouco de esforço para entender e mente aberta. Na primeira, essa que vocês irão ler, num sentido literário e filosófico, eu me matei. Por isso todos os meus posts passaram a ser assinados como "dead oz". Essa saga foi escrito junto com a "Última Saga", sendo que os primeiros textos da Última - que foram os último postados, porque postei ao contrário, lembra? - eram os textos encontrado pelo personagem dessa saga. Confuso? Pois é...

- Textos postados em Maio de 2006, no Mundo de Oz III [http://mundodeoz3.blogspot.com].

Oz Is Dead

"Goodbye cruel world,
I'm leaving you today.
Goodbye, all you people,
There's nothing you can say
To make me change my mind.
Goodbye."

Olhou em volta. Olhou para a prateleira cheia de livros que não leu, olhou para a pilha de cds piratas, olhou para o beliche que dividia com seu irmão e para o velho computador. Olhou para o calendário. Pensou que já fazia tempo demais que vivia naquele quarto. Ficou triste. Olhou-se no espelho. Percebeu que seu corpo mudou bastante com o tempo. Nunca cuidara da saúde e isso começava a refletir em suas costas curvadas, em seus dentes, em suas rugas precoces, em sua calvície precoce, em sua aparência cansada e apática. Mas sabia que sua aparência era na verdade reflexo de como se sentia por dentro. Fuçou nos velhos papéis de sempre. Lembrou-se dos anos que perdeu. Inúmeros cadernos rabiscados com projetos e planejamentos. Tinha compulsão por rabiscar pensamentos. Tentou entender porque em todos esses 15 anos nunca fez nada. Tentou entender porque nunca terminava o que começava e porque sua vida parecia travada a mais de uma década. Pensou que dessa vez seria diferente, mas lembrou-se de que não era a primeira vez que dizia isso a si mesmo. Nem ele mesmo acreditava mais em suas mentiras. Viu que a causa daquilo poderia ser um problema mais sério e que talvez nunca seria resolvido. Ficou desesperado.
Tentou falar com a mãe, mas ela nunca o ouvira. Tentou falar com o pai, que só sabia debochar de tudo o que ele dizia. Em vão. Não tinha intimidade de falar de seus problemas com seu irmão. Já sentia como se não fizesse mais parte daquela família, como se fosse um estorvo para eles. Automaticamente pensou nos poucos amigos com quem ainda falava. Não entendia porque fazia grandes amizades e logo em seguida sumia e não falava mais com eles. Não tinha amigos. Talvez por isso houvesse se viciado na Internet. Mas não conseguia se encaixar em nenhum grupo. Não conseguia viver socialmente. Na verdade, andava pela rua irritado por que parecia que todos e tudo estava conspirando para interromper seu pensamentos. Odiava sair de casa. Sentiu-se solitário.
Ligou a TV. Passava mais tempo diante da tv, desde que perdeu o último emprego. Já estava ficando velho e a pressão de responsabilidades batendo à porta lhe fazia pensar que nunca tivera uma formação – apesar das chances que teve – e que ainda não tinha profissão numa idade em que todos tem. Também não tinha dinheiro. Nenhum. Viu a vida passar na tela da televisão, com seu brilho e imagens de falsas vidas. Viu um programa mostrando o dia-a-dia de pessoas fazendo o que ele sonha em fazer. Viu como estava distante daquilo e de como suas chances eram cada vez menores. Sentiu-se fracassado.
Tentou ouvir uma música e lembrou-se das inúmeras vezes em que imitava os músicos. Pensou nas falsas biografias que fazia com ele incluso, como se pudesse mudar o passado e viu o quanto aquilo parecia insano e adolescente. Começou a ouvir músicas tristes e lembrou-se da bailarina. Chorou. Aliás, ultimamente chorava à toa. Uma música, uma imagem, um texto... Parecia que tudo tocava seu coração e o fazia sentir-se pequeno e fraco. Pensou nas ilusões que tentava alimentar. Profissões, amores, vidas... Ficou deprimido.
Pensou que estivesse ficando louco, ou que já estava. Pensou que talvez não houvesse mais modos de mudar. Pensou que tinha que aceitar a vida como ela é e que teria que assassinar a si mesmo, seus sonhos infantis e suas ilusões para continuar vivendo. Teria que ser quem é de verdade – e de quem sempre fugira (mas afinal quem ele era de verdade?)– e que teria que romper com falsas esperanças para abraçar a realidade. Sentiu-se morrendo.
Percebeu que o louco teria que sumir por tempo indeterminado e lembrou-se da primeira vez em que isso pareceu ser o melhor a fazer, mas não conseguiu. Talvez devesse morrer. Sentiu o mundo fantástico do pequeno mago ruir. O velho Peter Pan sentiu o peso da realidade sobre suas costas e seus bolsos vazios. Sua loucura o estava atrapalhando e parece que sua sanidade queria destruí-la a qualquer preço, antes que enlouquecesse de vez. Não eram tempos para loucuras. Decidiu matar o mago e seu mundo de faz-de-conta. Suicídio de uma parte de si. Mas por quanto tempo algo assim ficaria na sepultura? Desejou que para sempre. Sentiu-se morto.

Oz está morto.

Post Mortem - 1/4

“NEWS ON THE MARCH!!!
O Fantástico Mundo de Oz, um dos mais malucos e divertidos mundos imaginários teve no mês passado um dos mais bizarros e tristes funerais da história blogueira. O mundo chorou pela morte de seu ilustre criador, Oz. De sua origem humilde e de seus primeiros devaneios na escola e em seu quarto, com seus brinquedos, Oz tornou-se uma das mentes esquizofrênicas mais admiradas. Aventuras, comédias, tragédias, amores, frustrações, ilusões... Um homem que fará falta ao meio blogueiro. Em seus últimos dias estava triste, isolado... E então morreu."

O vídeo termina. Alguém para o dvd e acende as luzes, mas o ambiente continua lúgubre, iluminado pela parca luz que atravessa a espessa cortina de tons pasteis. O mesmo homem que acendeu as luzes se dirige a um canto da sala e se posiciona em pé ao lado de uma poltrona. Nela está sentado um estranho e sombrio homem de meia idade, cabelos compridos pretos, barba, roupa preta e um cetro numa das mãos. Flávio não parece muito confortável.
- Diga-me, Sr. Luís. O que quer de mim? Ainda não entendi porque me contatou.
- Tenho um trabalho para você. Ouvi dizer que está precisando trabalhar, não é verdade?
- É, mas... Eu não sou detetive. Nem repórter.
- Sei que você fará um bom trabalho. Queremos completar esse vídeo com mais informações sobre o que aconteceu com o Oz. Soubemos que suas últimas palavras antes de morrer foram “somente depois de perder tudo se está preparado para fazer o que quiser”. Queremos saber o que isso quer dizer. Pagaremos bem e todas as suas despesas serão cobertas.
- Certo. Mas por onde posso começar?
- Sabemos que Oz tinha muitas amigas. Mas quando ele estava meio deprimido sempre falava com uma certa bailarina. Tome. Aqui está o lugar que ela freqüenta. Vá até lá e vê se descobre alguma coisa.
Flávio pega o papel e segue até uma boate. Depois de fazer algumas perguntas, aproxima-se de uma garota sentada numa mesa com ar triste e uma garrafa de cerveja Guiness na mão.
De repente, um clarão lhe cega os olhos.
Um garotinho se aproxima de um grupo de crianças num playground escolar, mas é rejeitado e derrubado por outro garoto. Vê o mesmo garoto correndo por um corredor entre casas pobres até entrar em uma dela e se esconder num dos quartos. Um homem moreno entra com uma cinta na mão. O garotinho grita e chora. O garoto agora brinca em seu quarto, sozinho, inventando histórias com os brinquedos. Ele se vira para Flávio.
- Quem é você?
Outro clarão. Flávio segura-se na mesa e senta-se na cadeira da boate.
- Tudo bem com você, cara?
- Tudo. Foi só uma tontura... Você... Você conhecia o Oz, não conhecia?
- Estranho você perguntar isso.
- Eu precisava saber porque ele morreu e quais foram suas últimas palavras...
Ela faz um certo silêncio e uma cara de quando se brinca com alguém e esse alguém não gosta.
- Não quero falar sobre isso. Sai daqui!
- Mas...
- Saia daqui!
Flávio levanta-se sem entender nada. Desiste e caminha em direção à porta. Antes, ela lhe diz uma última coisa.
- Olhe-se no espelho. Vai encontrar o que procura.
Flávio vai até o velho e sujo hotel onde estava hospedado, ainda sem entender nada. Vai até o banheiro e olha-se no espelho. Nada. Lava o rosto e senta-se na cama. Liga a TV. Vai passando pelos canais.
Outro flash. Vê a si mesmo sentado num sofá, entediado e deprimido, roupas velhas de dormir, lata de cerveja na mão, zapeando os canais da TV. Série sem graça, novela, programa evangélico, um travesti lançando um livro, programa feminino de tarde, jogo de futebol, debate sobre jogo de futebol, um cara afeminado dando conselhos pra alguém, programa de televendas, outro programa de televendas, novo clipe do Simple Plan, animação de massinha...
Acordou. Estava de volta ao hotel. Foi novamente até o banheiro para urinar, olhou no espelho. Havia uma mensagem, escrita com caneta retro: “Aplicai o vosso coração ao vosso caminho.”
O telefone tocou. Atendeu.
- Alô?
- Cara, eu posso te ajudar. Mas ninguém pode saber.
- Como assim?
- Na recepção. Tem um pacote. É um diário. De um tal de Easy Eight. Pode te ajudar...
- Mas, quem é você?
- Não importa. Preciso desligar. Tchau.
E desligou. Flávio foi até a recepção e de fato havia lá um pacote com um caderno dentro. Pôs-se a ler as partes grifadas:
“Hoje eu conheci o Oz. Parece um cara normal, pra mim.”
“Cara, cada história doida que o Oz escreve...”
“Retiro o que disse por ele ser normal. O cara é maluco de pedra!”
“Parece que o Oz não tá legal... Problemas em casa, com a namorada...”
“Ele sumiu. Ficou uns 10 dias desaparecido. Quando voltou, disse apenas que os 10 Dias de Agonia haviam terminado.”
“Parece que alguém está atrás de mim. Devo ter mexido com alguém que não devia. Preciso da ajuda do Oz...”
Mais tarde, Flávio vai até um bar freqüentado por roqueiros. Lembrou-se que um dos amigos do Oz tocava lá às sextas.
- Posso falar com você?
- Manda, cara.
- O que pode me dizer sobre o Oz?
- Hahaha. O que se pode dizer sobre o Oz, cara? Ele era o Oz! Entende?
- Hum... Não.
- Ah, ele era único. Mas tava passando por maus momentos...
- Como assim?
- Não conseguia definir sua vida. Pobre, sem profissão, ficando velho... Começou a trabalhar em empregos discutíveis, até um último, num supermercado. Começou a ficar meio paranóico, deprê... Depois ficou desempregado de novo e morreu.
- O que você sabe sobre a morte dele?
- Ah, não posso falar nada não cara...
- Eu preciso saber...
- Olha. Melhor não mexer nisso. Tem lance da pesada, cara.
- Ei. Essa camiseta é do Black Sabbath? Vol. 4. Grande disco...
- É, é mesmo. Ó. Me encontra amanhã neste endereço.
- Valeu.
No dia seguinte, Flávio vai até a casa no endereço indicado. Ao entrar, encontra o amigo de Oz morto, estrangulado com uma corda de guitarra. Na parede, com sangue, vê o desenho de uma espécie de crucifixo diferente. Junto do rapaz, ele vê um envelope pardo e pega-o. Escrito do lado de fora lê “últimos posts perdidos de Oz” e resolve levá-los. O celular toca. Flávio atende.
- Alô.
- Eles estão te vigiando.
- Hein?
- Eles já sabem da sua busca, mas subestimaram sua importância.
- Quem é você?
- Eu falo em nome de Morpheus, de quem sou servo. Volte para o hotel, meu mestre o aguarda para ajudá-lo.
- Morpheus? De Matrix?
- Hahaha. Não. Não esse. Outro, maior, mais poderoso. Vê o símbolo na parede?
- O crucifixo?
- É um “ankh”. Símbolo egípcio da eternidade. Significa que Oz está com a a irmão de meu mestre. Talvez ele não esteja realmente morto. Apenas não está vivo.
- Quê?
O telefone é desligado. Flávio resolve ir até o hotel. No caminho, vai ouvindo “Knockin’ on Heaven’s Door”, de Bob Dylan e lendo os textos perdidos de Oz.



- megalomaníaco, Cidadão Kane, Coração Satânico, Sandman...
isso é só o começo.

2 comentários:

Deborah disse...

wow...

lembro de ter lido o primeiro texto. lembro de ter abraçado a sua melancolia, inclusive.

Angyn disse...

engraçado como vc tem esse jeito joyceano de falar de si mesmo sendo pluri e causando identificação no leitor, só que a mistura de literatura infantil, HQs, mangás (estilos literários desconsiderados pelo meio acadêmico) me agrada mais :)

não se esqueça de que Peter Pan é o único que não cresce... nós somos os meninos perdidos, aqueles que têm a chance extraordinária de viver realidade e fantasia, é só continuar acreditando em fadas e tendo pensamentos felizes pra voar rumo à Terra do Nunca

ah... a incessante caminhada em direção ao equilíbrio... preciso acreditar que minha vida é dialética, apesar de possuir incontáveis dicotomias dentro de mim

sabe de uma coisa? ninguém deveria matar sua criança interna, elas estão muito mais perto da sabedoria do que qualquer adulto ousou estar.

esse post me lembrou dos meus 9 anos de inércia... triste, mas o que não me mata, fortalece (brega e ordinário, mas até que está sendo parte da minha realidade agora :P)