sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Saga Sem Nome - Zero

* texto originalmente postado em 2006 no Mundo de Oz III (http://mundodeoz3.blogspot.com).

** texto escrito inspirado na música "Operation: Mindcrime", do Queensrÿche.



O telefone toca. Ela atende. Parece fria e culpada. Um peso.
- Sim, eu sei. Agora? Não, não. Tudo bem. Eu vou fazer. Já disse que sim. Até lá então.
Desliga. Chegou a hora do fim.

O telefone toca. Ele desliga a tv e levanta-se para atender.
- Alô? Sim, sim. Engraçado, tive uma idéia sobre isso. Aham. Pode deixar, eu faço sim!
Desliga. Tenta entender. “Deja-vu, talvez...” Senta-se no computador. Liga o rádio. Começa a escrever. Finalmente, chegou a hora de começar.

- Acorde!
A morena. “Sonhos de novo.”
- É difícil manter você na realidade, hein!
- Desculpe.
- Tudo bem. Vamos ao que interessa. Feche os olhos. Relaxe.
Ele ouve as instruções. A voz dela vai se esvaindo aos poucos. Escuro. Uma luz. Ele caminha até ela e a atravessa.

Outro lugar. Um escritório. O homem de plástico e o doutor.
- Algo tem que ser feito da sua vida, garoto. Você não tem objetivos.
Tudo para. A voz da morena:
- Não, não. Vamos voltar mais.
Outra luz. Uma porta.
A loira. Grávida.
- Não sei mais o que fazer.
- Calma, você vai dar um jeito.
- Essa avalanche de pensamentos, essa exaustão... Acho que tô ficando deprimido...
- Você anda bem distante. Porque não vai ao médico?
“Não é uma má idéia.”

O consultório. O doutor.
- Nós fizemos os exames e devo dizer que estou impressionado! Nunca vi uma mente tão rica como a sua!
- Isso é bom ou ruim?
- Não existe isso de bom e ruim. Você só precisa dar um sentido a isso. Olha, pegue esse endereço. Eles podem te arranjar um trabalho onde sua mente será de muita valia.
- Obrigado.

O escritório. O homem de plástico.
- Nossa organização está presente em todo o mundo e em todas as mídias, você sabe. Por isso queremos que você escreva para nós.
- Somente escrever?
- Entenda. Temos uma visão do que é melhor para as pessoas. Unimos fins políticos com o poder da espiritualidade. Queremos o melhor para todos. Para isso, temos que fazê-los mudar a maneira de pensar. E é aí que entra você.

Casa. A loira. Um bebê.
- Você não parece muito feliz.
- Não.
- O que está acontecendo com você?
- Não sei. Não tô legal. A gente não tá bem e eu não tô feliz pelo que estou fazendo...
- A gente não tá bem faz um bom tempo...
- É... Acho que vou sair da organização.

Escritório.
- Você não pode sair. Sabe disso.
- Eu não vou ajudar vocês com isso mais! Não é certo!
- Olha. Detesto ter que fazer isso, mas você não me deixa escolha. Isso é mais importante do que você imagina. Mais importante que sua mulher e seu filho.
Ele parece não acreditar no que ouve.

Rua. Noite. Chuva. Ele olha pela janela. A loira e o bebê. Triste por ter que ir embora. “Melhor assim. Não quero por a vida deles em risco”.

Apartamento. Depressão. Desde que saiu da organização e ficou sozinho, as imagens passaram a ser mais intensas e cruéis. “Melhor dar uma volta.” Pegou um livro. “1984”. Saiu.
Trem. Ela. A ruiva. Paixão.

Apartamento. Melancolia. Ela na cama, ele na sala.
- O que houve?
- Nada.
- Não está feliz? Está fazendo o que gosta e ajudando pessoas... Voltou a escrever... Está com quem gosta...
- Algo está errado. Não sei dizer o que é.

Chuva. Ele no bar. Um velho calvo de óculos1 se aproxima.
- Difícil, né?
- O quê?
- Elas te consomem. Você tenta encontrar um fim para elas, já que não pode se livrar, mas não sabe se está dando o fim certo...
- Do que você tá falando? Quem é você?
- Ah, eu já fui chamado de mágico, louco, irresponsável, neurótico... Mas gostava quando me chamavam pelo nome daquele cantor! “Don't aks me, I don't know..”2. Eu já morri, já sumi, já fiquei deprimido assim, como você... Mas isso não importa! Eu sei das imagens, da organização.
- Como? Pensei que fosse secreta.
- Nada é secreto demais...
- E o que eu faço, velho?
- Primeiro, fique longe da televisão. E quando atender ao telefone e ninguém disser nada, desligue imediatamente. É assim que eles te hipnotizaram e ativam seu cérebro para escrever o que eles querem.
- Hahaha. Você é louco, velho!
- É, pode ser. Lembre-se apenas do que eu disse.
O velho caminha para a porta do bar.
- Ah, mais uma coisa. Cuidado com as ruivas.
E se foi, desintegrando-se na noite chuvosa.

Apartamento. Meio bêbado. Ela o espera.
- Por onde você andou?
- Fui pensar um pouco.
Sentou-se no sofá.
- Por que não assiste um pouco de tv. Você gosta...
Pegou o controle. O telefone tocou. Parou. Olhou em volta. O sorriso dela, combinado com os cabelos vermelhos o enfeitiçava. “O fim”.

Escritório. O homem de plástico parecia furioso.
- Não adianta. Estou fora!
- É a segunda vez que você faz isso conosco!
- Não tô nem aí!
Silêncio.
- Nós a mataremos.
Silêncio.

Apartamento. Corredor. Tiro. Corre. Abre a porta. Ela, a ruiva. Vermelho. Morta. Chora.

Galpão velho. Ele. Insano, confuso, perigoso. Polícia. O doutor.
- Podem levá-lo.
Eles o levam.

Hospital. Paredes esverdeadas. O doutor.
- Você não nos deu outra escolha. Eles acreditam que você a matou. E que teve um colapso. Por isso você está aqui.

Sozinho no quarto. Vozes. “O espelho. Atravesse o espelho!”. Levanta-se. Caminha. O espelho. Vai de encontro a ele. E o atravessa.

- Bem-vindo de volta!
“A morena”.
- Acabou. Você está de volta. Não tem mais hipnose. Nem drogas.
- Drogas?
- Eles te drogaram por um bom tempo, para intensificar as imagens. Por isso elas vinham e iam sem rodeios e te deixavam desorientado.
- E ela? Quem a matou? Eu?
- Nope! Ela não está morta. Tudo encenação sugestiva. Fazia parte do plano deles.
- Entendo... E agora?
- Não sei. Você quem decide.
- Havia uma loira. Um filho.
- Hum... Quem sabe um recomeço?
- E o velho...
- Sinto saudades dele...
- Quero saber o que ele fez com esse dom, maldição, sei lá o quê.
- Ele deu um significado maior...
- Então, é isso.
Levantou-se. Caminhou até a porta. Virou-se.
- Obrigado.
- Por nada. Então... O que vai fazer?
- Começar do zero3.
E saiu pela porta rua afora.

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Notas:

1 - adoro essas ferramentas narrativas, quando todo mundo acha que você é o protagonista, aí você aparece, hehe (sim, o velho sou eu!).
2 - "I Don't Know" - Ozzy Osbourne
3 - no post havia um link na palavra "zero" que levava ao novo blog até então, o Mundo de Oz Versão Zero!

...finalizando o ano e os posts repostados deste blog, vem aí a Saga Zero!

sábado, 24 de novembro de 2007

Saga Sem Nome - Um

*texto originalmente postado em setembro de 2006, no Mundo de Oz III (http://mundodeoz3.blogspot.com)

**post escrito inspirado pela música "Suite Sister Mary", do álbum Operation Mindcrime, do Queensrÿche.
http://www.youtube.com/watch?v=UKnR9fBC4Tk

Ele e o homem de plástico caminham pela rua.
- Nós a mataremos. Se você não continuar conosco.
- Ela? Não. Vocês não...
- Não temos outra escolha. Você é muito importante para o nosso projeto.
O homem entra num carro de luxo e vai embora.

Chuva. Os sonhos tornam-se mais lúcidos. Desde que parou de tomar os remédios sem que percebecem. Olhava para o teto do quarto esverdeado. Pensava no cd que havia ouvido. Lembrou que um enfermeiro entrou na hora e levou o cd-player antes que pudesse terminar. Mas isso já não importava mais. Sabia que havia algo errado e que teria que descobrir o que era. "A morena. Preciso encontrar a morena!"
Determinado, levantou-se e foi até a janela. Com um pouco de força, conseguiu quebrar a fechadura. Térreo. Pulou para fora. Correu pelos jardins verdes e sombrios daquela clínica. Chegou ao muro. Subiu numa árvore e pulou. Rua. "Livre! Livre?" Correu e correu. Junto com a chuva, pensamentos e imagens desaguavam em sua mente.

A última briga com a loira. Um homem escrevendo. "Eu?" Uma conferência de homens importantes. O ódio. "2 minutos de ódio."1 Viu-se num quarto sujo de pensão. O fim do poço. Uma ruiva. "Ela." Paixão. O homem volta a escrever. O peso da consciência. O doutor. O líder. Ameaça. Um corpo e o vermelho. Dor. A culpa. Fuga. Correndo de si mesmo. Loucura. Viu-se sendo levado. Pílulas azuis. O Doutor. "Wheels of confusion"2 no rádio. Ilusões, sonhos. O quarto verde. Roupas verdes. A morena. O cd. A luz.

Parou, no meio da rua. A chuva insistindo em diluir seus pensamentos. Estava sóbrio.
- Eu me lembro agora.

Caminhava pelas ruas. Roupa diferente. "Isso não é real? Outro sonho?" Ainda havia chuva, mas não se importava. Sempre que perdia tudo essas coisas pareciam não importar mais. Adorava andar pelas ruas. "Elas são minhas", costumava pensar. Parou diante da porta velha daquele prédio velho. Número 13. "É aqui." Entrou.

A ruiva parecia enfeitiçá-lo. Fazia tudo por ela. Voltou a escrever, mas não estava feliz. Era totalmente apaixonado por ela. "Será ela por mim também?" Não sabia se era certo, mas adorava estar com ela. Mesmo que tivesse que escrever para isso. Pensou nisso enquanto andava pelos corredores do prédio novo e frio com os novos textos na mão. Entrou na sala do chefe. Ela. "Por que sinto que fui enganado?" Silêncio.

- Boa noite, sonhador.
Do outro lado da velha porta estava a dona daquela voz. "A morena. Finalmente."
- Eu estava esperando por você. Entre.

A multidão estava realmente animada. Ele foi anunciado. "Nosso novo profeta!", alguém gritou. Atrás de si as bandeiras que tentava não defender. Todos levantaram-se e aplaudiram. Ele era a nova salvação daquele estranho grupo. Vermelho. Havia vermelho por toda parte. Tentou calar a consciência. "Meu filho. Ele está vindo e preciso cuidar bem dele." Festa. Alegria. Todos o adoravam. "Talvez não seja tão ruim assim." Vendeu sua alma.

Da esquina ficou olhando para a janela do apartamento. A loira e seu filho olhavam com ar de tristeza. Foi-se pensando em nunca mais voltar. Sentou-se num bar. Tentava entender onde tudo isso levaria. Parecia lutar pela sanidade cada vez mais e nunca ganhava. "Aquele médico não está resolvendo nada!"

Ela. "Outro sonho". Parecia triste.
- O que houve?
- Nada.
- Sei que houve alguma coisa...
- Eu tô meio deprê, só isso.
- É algo comigo?
- Não. É que as vezes me pedem coisas que não sei se quero fazer.
- Como o quê?
- Esquece.

Fumaça. Neblina. Cego. Tenta caminhar, encontrar uma luz. Acorda. Preso.
- Sabemos que foi você. Confesse!3
- O quê?
"Policiais?" Havia uma luz forte em sua cara, difícil dizer. Olhou as roupas. Só conseguiu ler Cia. Kruber Ghran-Brauser. "Não são policiais."
- Por que você a matou?
- Não matei ninguém!
- Queremos que você confesse! Será melhor para você! O que estavam fazendo no parque?
- Quem são vocês? Me deixem em paz!
"Isso não é real! Não é real! Outro sonho!"

- Sempre quis ver você feliz, mas lhe trouxe dor e sofrimento.
Outro lugar. Ela de novo.
- Você não precisa continuar com eles se não quiser. Eu morro pra você se for preciso.
- O que você está dizendo?!
Tentou se lembrar qual era o assunto. Não conseguiu.
- Sei que se sente culpado. Eu sei da ameaça. Eu desapareço e você pode deixá-los novamente. Não precisa se preocupar comigo. Você tem coisas mais importantes para se preocupar.

- Ei! Acorde!
Estava no sofá, cochilando. Olhou em volta. A loira. "Cadê o menino? Nada."
- Nossa, como você dorme. Ainda sonha bastante?
- Aham. Que horas são? Que dia é hoje?
- Sempre perdido... Vamos! Levante-se! Você tem que ir na consulta do médico. Você prometeu!
- Médico?
- Ééé! Pra ver essas imagens na sua cabeça, os sonhos, os devaneios excessivos, lembra-se?
Tentou levantar. Um clarão. "Está acontecendo de novo."

Um tiro. Correu pelo corredor. Algo dizia que havia sido em seu apartamento. Subiu as escadas ofegante e chegou à porta. Abriu. Ela. No chão. Vermelho. "Não! De novo não!" Correu até ela. Ainda viva.
- Me desculpe se te magoei. Nunca foi minha intenção.
- Não fale! Vou buscar ajuda...
- É tarde... Você está livre...
Sentiu que a vida dela estava indo embora. Chorou.
- Tudo minha culpa! Minha culpa!
- Não. Eu sou culpada. Desculpe por destruir sua vida...

Ela tentou chorar, mas se foi. Ele fechou os olhos. Acordou. Hospital. Quarto azul. Roupas azuis. Janela sem grades.
- O que foi que eu fiz? O que foi que eu fiz?
Gritou e chorou. "Um sonho ou lembranças?" Parou. Olhou-se no espelho.
- Ah, doce irmã da dor. Sempre sozinha. Cega você procura pela verdade. Eu me vejo em você. vidas paralelas girando na velocidade da luz pelo tempo.4

Piscou. Outro lugar. O velho prédio de número 13. "Ela me falou que andava ouvindo vozes e que para poder dormir sempre tomava algumas doses"5, cantava alguém de fundo, num rádio. Na mesa uma revista sobre a morte de Oz6. Na sua frente a morena.
- Até que enfim voltou!
- Como? Essa é a realidade?
- Nossa! Fizeram um estrago em você mesmo, hein!
- Quem é você?
- A filha do seu salvador. Acho que você nem se lembra dele...
- A que esteve no hospital. Me deu o cd...
- Aham. Eles te hipnotizaram. Ah, isso eu já disse! E pelo jeito você não conseguiu ouvir o cd até o final, mas conseguiu me encontrar. Interessante... Acho que algum efeito teve. Sente-se. Vou te contar o que houve e tentar reverter o que fizeram. Mas enquanto eu falar, terá que olhar para aquele espelho fixamente e tentar não criar imagens na sua cabeça.
Sem entender nada, olhou para o espelho. Esperava finalmente por uma resposta.

...continua

Notas:

1 - referência ao livro "1984", de George Orwell
2 - música do Black Sabbath
3 - esse trecho tem várias referências à música "Eu Não Matei Joana D'arc", do Camisa de Vênus; uma "brincadeira" que eu fiz com uma amiga minha, assim como no texto original há algumas letras por todo o post em negrito, que juntas fazem referência a ela sendo à ruiva da história.
4 - trecho traduzido de "Suite Sister Mary"
5 - treho de "Eu Não Matei Joana D'arc", do Camisa de Vênus
6 - referência à saga anterior a essa.

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terça-feira, 6 de novembro de 2007

Saga Sem Nome - Dois

*texto originalmente postado em 2006 no Mundo de Oz III (http://mundodeoz3.blogspot.com).

**escrito inspirado na música "I Don't Believe In Love", do Queensryche.
experimente ler ouvindo-a. ;)



Ele caminhou lentamente pelo quarto. Procurava por ela. Um corpo estendido no chão. Vermelho. Sangue. Voltou para trás. Saiu do quarto. Uma mulher.
- O que você fez?!
- Nãããooo!

Acorda. Paredes azuis. Roupas azuis. Grades nas janelas. Velho. Ele levanta-se e caminha até o espelho. Parece bem mais sereno que antes.
- Eu me lembro agora.

Tentava ler um livro no trem. "1984"1. Não conseguia se concentrar. Fazia tempo que estava assim e estava cada vez mais insuportável manter-se ligado àquela dolorosa realidade. Sem mulher, sem filho, sozinho e falido. Tentava não pensar. Ler. "1984". Varreu o trem com os olhos. Pessoas. Vidas. Ela. Cabelos vermelhos.
- Legal esse livro.
- Oi? Ah, sim. Tô tentando ler, mas tá difícil...
- Ai, desculpa. Não queria atrapalhar.
- Hein? Haha. Não, não é isso. Eu tenho dificuldade de me concentrar. Minha cabeça é uma verdadeira bagunça inconseqüente.
- Todos nós somos inconseqüentes e meio perdidos de vez em quando.
Gostou dela.

Cena do crime. "Morta. Ela está morta! Quem fez isso? Quem me tirou isso? Não, não fui eu!" Desespero e dor.

Tentavam conversar a duas horas. Sem acordo. Parece que realmente havia terminado. O garoto divertia-se com o triciclo.
- Você pode vir vê-lo quando quiser. Afinal, é seu filho também.
- É só até eu por minha cabeça no lugar, entende?
- Parece que realmente você se tornou outra pessoa. Não te reconheço mais.
- Não ache que não está sendo difícil pra mim também.
- Queria poder te ajudar. Mas só você pode mudar isso.
Olhou nos olhos perdidos dele.
- Sempre estarei aqui. Ainda te amo.
- Não sei se ainda acredito em amor....

Correu pelos corredores do prédio até conseguir sair. Precisava de ar. "O que está acontecendo?" Chuva. Correu até onde dava e parou. Parou debaixo da chuva. "Preciso de redenção." Imagens em sua mente. Não sabia mais o que era real ou não. Caminhou pela chuva. "Exílio." E sumiu no horizonte escuro daquela noite confusa...

Eles pareciam realmente felizes. Mas algo o incomodava.
- Foi maravilhoso ter conhecido você.
A loira sorriu.
- Também adorei conhecer você.
- Sabe, é legal nós casarmos, termos nossa família... Mas eu não sei se estou preparado. Minha cabeça anda meio confusa.
- Como assim?
- Essas imagens, essas idéias, histórias... Às vezes elas me consomem.
- Por que não procura ajuda?

A ruiva2. Parecia que uma nova vida estava começando e então isso. Ela morre. Ele foge. Ele chora. É difícil perder alguém de quem se gosta sem dizer adeus. E a chuva ainda insistia em cair. Continuou caminhando rumo ao seu exílio, onde pensaria melhor no que estava acontecendo.

Acordou.
Paredes verdes. Claras. Janelas sem grades. Um hospital.
- Você realmente está me dando trabalho!
O doutor. Juntou as mãos. "Essa era a realidade?"
- Estou tentando te ajudar, mas parece que você não quer aceitar a realidade.
- Eu não sei nem o que realmente está acontecendo...
"Talvez isso também seja um sonho."
- Você cria ilusões e acha que são reais. Já disso isso. Mas se você continuar tentando escapar terei que ser mais persuasivo!
- Eu não vou mais ajudar você a conseguir o que quer! Já disse!
- O quê?!
"O envelope. Preciso abrir aquele envelope!"
O doutor fez um sinal. Um enfermeiro entrou e aplicou lhe aplicou uma injeção. Apagou.

Na tv, a apresentadora do jornal falava sobre o fim dos 10 dias de agonia de Oz e sobre o funeral célebre de Easy Eight. A enorme barriga não parecia incomodar a loira tanto quanto aquilo no que pensava. Ele, expressão triste, parecia já saber do que se tratava.
- Você está muito distante...
- Não é você. Esse trabalho novo está acabando comigo e minha cabeça...
- Lá vem você de novo com essa história.
- Você sabe que não é só "história". No começo eu criava minhas histórias e tal, mas agora elas vêem o tempo todo e não sei se estou sonhando ou acordado...

O homem de aparência de plástico não parecia nada satisfeito com aquela decisão.
- Não me olhe assim. Não posso mais fazer isso! Não vou mais ajudar você a conseguir o que quer! Está acabando comigo!
- E a nossa organização? Nossa ideologia?
- Já disse que não acredito no mesmo que vocês!
- E quem te ajudará?
- Como?
- Você sabe se esse momento é real ou não?

Entrou e sentou-se diante do médico. Era a quarta consulta, já.
- Como tem passado?
- Continuo mal. As fantasias parecem tomar cada vez mais espaço...
- Hum... Você sabe que tem um talento extraordinário, não sabe?
- Como assim? Não é uma doença?
- Não veja assim. Posso te ajudar e ainda conseguir um trabalho pra você.
- Preciso ficar bom. Vou me casar, sabe? Faço o que o senhor quiser.
O médico juntou as mãos.
- Já ouviu falar da nossa organização?

Ele realmente parecia feliz com a ruiva. Havia passado algumas semanas desde o encontro no trem. Poderia estar amando novamente?
- Você está me fazendo ter vontade de viver e melhorar, novamente!
- Hahaha. Não fale assim. Ei! Porque você não volta a escrever?
- Não sei. Eu parei exatamente por causa do que estava acontecendo... Perdi tudo, você sabe!
- Talvez você estivesse evitando ser quem você é.
- Como assim?
- Se viver no mundo de fantasia te faz feliz, por que fugir dele? Dane-se os outros! Eu gosto de você assim.
Olhou nos olhos dela.
- Você me impressiona cada vez mais, sabia?
- Volte a escrever para aquela organização da qual falou. Eles precisam de você...

Acordou. Ainda no hospital. Caminhou até a mesa. O envelope. Abriu. Um mini-cd. Olhou pelo quarto. Um cd-player. Botou o disco pra tocar. Uma voz feminina. "A morena".
- Você foi hipnotizado e esse é um cd que poderá ajudá-lo a quebrar a hipnose. Por favor, sente-se e tente relaxar. Tente não pensar em nada...



Notas:
1 - 1984, de George Orwell
2 - você perceberá que existem 3 tempos na história, meio divididos em cenas com a "loira" (passado distante), a "ruiva" (passado recente) e a "morena" (presente); ajuda a entender um pouco...

continua...

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Saga Sem Nome - Três

Republico aqui a chamada Saga Sem Nome, postada no Mundo de Oz III, entre Agosto e Setembro de 2006.
Como na época muita gente comentou que não entendia muita coisa, eu postarei um capítulo por vez, como da forma original. Porém, com notas explicativas. No original, o texto foi postado com os parágrafos em sequência, sem espaço entre eles. Aqui, considere as "linhas puladas" entre textos como mudança de cena ou tempo. O texto é bem "visual", além de outras duas curiosidades:
- eles foram escritos para serem ouvidos com algumas músicas do disco "Operation: Mindcrime", do Queensrÿche, assim como também influenciados pela história do mesmo.
- os títulos estão em ordem contrária, sugerindo uma contagem regressiva.

bem, vamos lá!

Três

*experimente ler esse post ouvindo Eyes of the Strange, do Qüeenryche.
esse post foi feito inspirado pela música e pelo cd de onde ela vem.
youtube: http://br.youtube.com/watch?v=HlPiLkO004I

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Um homem grita de um dos quartos de um hospital psiquiátrico. A enfermeira chama por um médico pelo auto-falante. No quarto, o homem, agitado, grita e tem que ser segurado e medicado.
- Não, vocês não entendem! Eu preciso sair, preciso atravessar o espelho!
O homem é sedado e cai num estado vegetativo. Começa a imergir em seus sonhos e pensamentos, sem saber realmente do que se trata cada coisa que lhe vem à mente.

Agora caminha por estranhas, sombrias e frias ruas urbanas. Totalmente longe da multidão em pensamentos, ele pensa nela. O ar de tristeza em sua face parece revelar péssimas lembranças. Sozinho, chega a um antigo prédio de apartamentos. Sobe e entra em seu pequeno e semi-destruído refúgio.
Vai até a cozinha, abre a geladeira. Só lixo. Abre uma cerveja e senta-se na sala. Pela janela, vê o apartamento do vizinho e a tv ligada. Corre até a janela e fecha as cortinas. Parece assustado, inquieto. Vai até o banheiro encardido e lava o rosto. Olha-se no espelho. Deita-se na cama e tenta dormir. Fecha os olhos. Sonhos.

O rosto de uma mulher, um quarto cheio de papéis, sangue no chão, uma casa em chamas, um homem com cabeça de elefante, ursos de pelúcia gigantes caminhando pela cidade, um médico, um laboratório, um tiro, um homem correndo, um olho feminino.

Ele acorda assustado. Está no meio de uma praça. Muitas pessoas em volta. Olhando, estranhando, sem entender nada. Mas ele entende menos ainda... "O que estou fazendo aqui? Como vim parar aqui?" Perdido sem saber o que aconteceu, ele corre pela ruas amargas. Roupas diferentes. "Não é possível! Eu estava em casa agora mesmo!"
O homem entra num beco. Tenta entender o que está acontecendo. Vê um jornal no chão. "Oz fica louco com o fim do Mundo"1 é a noticia. Pega e tenta ler, mas apaga novamente.

Acorda num quarto de hospital. Ao menos acha que é um hospital. Mãos presas. Uma camisa de força. Grita. Enfermeiros entram e tentam acalmá-lo.
- Não, vocês não entendem!
- Chame o médico, depressa! - grita uma enfermeira para a outra.
- Eu preciso sair! Preciso atravessar o espelho!
- Calma, por favor!
- As pessoas acham que eu sou louco, mas eu realmente estou no mundo errado!
- O sedativo! O sedativo!
- Vocês estão me prendendo dentro de mim mesmo!
Uma injeção. Tonto, confuso, escuro.

Uma trilha deserta por uma floresta de ilusões. Ele caminha, olha em volta. Sente que está sendo vigiado, mas não sabe exatamente por quem. Fica triste por estar nesta situação. Gostaria que fosse diferente. Tenta manter a lucidez e acreditar que aquilo é apenas um sonho. Caminha e caminha. Corre! Acorda!

Ainda no quarto do tal hospital. Não! É outro! Roupas diferentes, sem camisa de força. Um homem sentado à sua frente o analisa. "Ajuda. Preciso pedir ajuda".
- O que está acontecendo comigo? Onde estou?
- Agora? No mundo real.
"Mentira!"2
- Eu preciso acabar com isso. Quero ser feliz e normal!
- Impossível! Você sabe disso.
"Verdade?"
- A verdade! Eu quero a verdade!
- A verdade que nós aceitamos ou a verdade que você quer aceitar?
- Tudo que quero é saber o que está acontecendo e por que...
Silêncio.
- Vocês está sob tratamento. Esquizofrenia. Vive num mundo criado por você mesmo.
- As imagens na minha cabeça são falsas?
- Sim. A não ser esta.
O homem sai do quarto. Ele fica pensando e tenta entender... Uma enfermeira entra.
- Mais remédios?
- Xiu! Olha, pega esse envelope. Tenho que ir...
- Ei! Que isso? Quem é você? Outra ilusão?
Ela para e olha pra ele.
- Nem todas as imagens em sua cabeça são ilusões.
Sai e fecha a porta.



Notas:
1 - referência ao meu último post no Mundo de Oz 2.0. Em cada poste terá uma referência a um post de blogs antigos.
2 - os pensamentos do protagonista, sempre entre aspas.

:]

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Post Mortem - 2 de 2

>> Textos originalmente postados no segundo semestre de 2006, no Mundo de Oz III (http://mundodeoz3.blogspot.com).

O post ficou super-enorme, então... divirtam-se! Hehe.

Post Mortem - 2/4

O Fantástico Mundo de Oz adverte:
Este post é indigesto para as mentes menos perturbadas, pois podem conter cenas de grotesca insanidade do autor.

A caminho do hotel, Flávio ainda encontra tempo para ler os outros dois textos perdidos de Oz encontrados com o corpo de seu amigo assassinado.
Chegando ao hotel, percebe que o ambiente parece estar diferente, mas não sabe dizer ao certo o que é. Há um certo “peso” no ar. Entra em seu quarto e vê um cara magro e extremamente alto, de pele bem pálida e um estranho manto preto sobre a roupa toda preta1.
- Olá. Eu sou Morpheus, o mestre dos sonhos.
Queria rir, mas alguma coisa dizia que aquilo era sério.
- Você disse que poderia me ajudar a descobrir algo sobre a morte de Oz...
- Sim. – a voz era grave e gélida, como se viesse das mais profundas trevas.
- Como?
- Venha. Sente-se. E durma...
Flávio sentou-se numa cadeira e o estranho fez um movimento com as mãos, lançando uma estranha areia no ar, fazendo-o adormecer.
Flávio vê uma mulher caminhando em sua direção. Ela veste um longo vestido preto e seus cabelos, lisos, também são pretos. Atrás dela, uma igreja antiga de madeira, em meio a uma floresta de outono2. Um flash. Um garoto pré-adolescente está sentado num muro de escola. Parece excluído de todos. Calmamente, ele desenha. Flávio aproxima-se para ver os desenhos e vê seres fantásticos se movendo, como num desenho animado. De repente, uma mão adulta masculina puxa o garoto pelo ombro.
- Já falei para não perder tempo com essas besteiras! Você precisa estudar e trabalhar!
O homem dá um forte tapa no rosto do garoto e lhe tira os desenhos, que automaticamente se incendeiam. O garoto abaixa a cabeça por um tempo. O homem vai embora. O garoto levanta a cabeça e olha em direção aos outros alunos na escola. Com o lápis, faz movimentos no ar, como se desenhasse, em direção a eles. Algumas pessoas começam a apagar-se. Outras, ganham novas formas.
Flávio caminha por um barracão escuro e aparentemente abandonado. Sente cheiro de sangue. Chega a uma parede, onde vê um pentagrama e uma cruz de cabeça para baixo pintados com tinta vermelha. Em cima de tudo, viu escrito “grito silencioso da criança esquecida que deve ser enterrada”3. Antes que pudesse entender, sentiu alguém tocá-lo. Virou-se e viu um jovem de cabelo ruim comprido e preto.
- Eu sou o Anjo da Morte!
E o jovem lhe atravessou uma lança. Sentiu dor, mas antes que pudesse gritar, viu guitarras, super-heróis e câmeras de vídeo caindo do céu. Uma garotinha loira, toda de branco colhia flores num jardim.
- Faça o que veio fazer. Faça o que Ele quer que você faça. Plante! Plante!
Escuro de novo. Ainda estava ferido sangrando. Ouviu algo e se virou. Um cara com uma estranha máscara na cabeça estava sentado no chão balançando para frente para trás com um boneco de pano na mão.
- Esperando e sangrando... Esperando e sangrando... 4
Percebeu que estava numa espécie de hospício. Um senhor de barbas até os joelhos e com uma roupa amarela de hospital passou por ele5.
- O segredo é ficar de boa, cara! Keep-o-trucking!
Um outro velho passou em sentido contrário, falando sozinho.
- Essa é boa. Eu fiz um contrato com você, Deus. E você me bota nessa? Vamos lá, vamos negociar...6
Uma enfermeira se aproxima.
- Com licença. Oz está aqui? – Flávio pergunta.
- Claro. Ali, naquele canto – apontando em direção a uma janela.
Um cara de cabelos desgrenhados e olhar inerte olha para fora.
- Oz. Preciso falar com você. Sobre sua morte...
- Dançando, dançando... Você vê? Bonequinhos canibais dançando?
- Não. Olha, eu...
- Escória! Tenho que ajudar a limpar o mundo!
- O quê?
- Garota, vá pra casa! Seus pais, eles devem estar preocupados..
- Que garota? Não tem garota nenhuma aqui.
Oz levanta-se e olha-se no reflexo seu na janela.
- Falou comigo? Tá falando comigo?7
E fez um movimento como se sacasse uma arma, apontando o dedo indicador, como o polegar estendido e os outros dedos dobrados, para o reflexo.
- Sai daqui garota. Vai pra casa. Vá viver sua vida sofrida. Só pode haver um.
- O quê?
Oz aponta o dedo pra cabeça.
- Pá!
Seus miolos estouram pelo lado esquerdo da cabeça. Ele cai. Muito sangue no chão. Flávio fica apavorado com o que vê. A enfermeira corre para acudir.
- Rápido, rápido! Chamem a emergência!
Vira-se para Flávio.
- Viu só o que você fez? Aqui não é lugar para gente como o senhor, Sr. McMurphy8!
- Mas meu nome não é...
Virou-se para trás. Viu uma garotinha de cabelos alaranjados estática, observando tudo.
- Mas...
Um cara vestido de pierrot surge do nada e lhe estende a mão9.
- Venha! Venha Nemo!
- Eu não sou...
Mas estendeu a mão mesmo assim, e sentiu ser puxado com força.
Acordou. Estava caído no chão do quarto do hotel. Morpheus havia sumido. Um magrelo alto e pálido, com um olho de vidro e uma espécie de fraque e cartola pretos estava sentado na cama10.
- Doces sonhos, rapaz? Essas pílulas fazem tudo, menos te salvar de si mesmo.
- O quê?
Jogou outro envelope no colo dele.
- Não se iluda com as pessoas bonitas.
Levantou-se e saiu do quarto. Mas deixou a porta aberta. Flávio levantou para fechá-la e deu de cara com um funcionário do hotel.
- Está tudo conforme seu gosto, senhor?
- Essa espelunca tem serviço de quarto?
- Somente para hóspedes ilustres como o senhor...
- Como assim...
- Não se preocupe. Tudo está indo conforme o senhor planejou. Ooops!
- Eu planejei isso?
- A regra número um do Projeto Dead Oz é não falar sobre o projeto11.
Flávio não estava acreditando no que estava ouvindo. Os dois ficaram lá, no corredor, se olhando como se um esperasse que o outro dissesse alguma coisa...

Post Mortem - 3/4

Flávio tentava entender o que estava acontecendo.
- Tudo bem, você não quer falar sobre o projeto. Não falamos. Mas você me conhece?
O camareiro do hotel pareceu surpreso.
- E quem não conhece o senhor, Oz? Quer dizer, Flávio.
- Como é que é?
- Olha. Não posso falar mais nada.
E saiu, sumindo num dos corredores imundos do hotel. Flávio ficou sem saber o que fazer. Saiu pra pensar. Passou num bar e pediu uma cerveja. Uma banda de garagem tocava covers dessas bandas novas de rock. Alguma coisa o incomodava. Saiu do bar, caminhou. Parou na frente de uma igreja e entrou. Mas parecia que aquele lugar não lê confortava e não trazia muitas respostas. Era só um prédio velho...
- Não pense muito. É perda de tempo.
Flávio virou-se e viu o Sr. Luís12, com a mesma roupa preta e o cetro, sentado num dos bancos.
- Como me achou aqui?
- Não interessa. Como vai indo o trabalho?
- Nada bem...
- Hum... Entendo... Eu tenho um “presente” pra você que pode ajudar. Vá até esse endereço... – e lhe entregou um papel.
Flávio olhou para o papel e, quando se virou, viu que o Sr. Luis tinha sumido. Levantou-se e saiu da igreja, quando foi abordado por um padre.
- Filho... Tome cuidado. Há forças poderosas brigando para derrubá-lo.
- Hein? Querem acabar comigo?
- Não, filho. Querem que o Oz nunca mais volte.
- Quem é você?
- Sou apenas um Mensageiro. Saiba apenas que Oz é mais importante do que você imagina... Por isso o mataram. Mas não querem que ele volte.
- Voltar? Como assim? Não se volta dos mortos! Não é isso que a igreja prega?
- Igreja são regras. Tem coisas que não podem ser postas sob regras. Tome. Esses são os últimos dois textos que Oz deixou antes de morrer. Quando lê-los vai entender o que estou dizendo. Agora vá. Mas tome cuidado.
O padre dá um outro envelope para Flávio e se vai. Flávio sai da igreja e pega um ônibus para o endereço que o Sr. Luis entregou-lhe. Tirou um dos dois últimos textos perdidos de Oz do envelope e pôs-se a ler durante a viagem até a periferia...

Post Mortem - 4/4

No caminho para a periferia da cidade, Flávio lê no ônibus o último texto escrito por Oz antes de morrer:

In My Time Of Dying 13

Uma vida. Nada mais. Eu me lembro de Vidas Breves, onde um sujeito morre de forma idiota depois de ter vivido por séculos. Pergunta à Morte: “Então, quanto tempo eu vivi? Dois, três séculos?” Eis que ela responde: “Uma vida. Apenas uma vida.” E não é isso que resta a todos nós? Viver apenas uma vida. Parece lógico, parece óbvio, mas tem muita gente – inclusive eu mesmo – que não consegue absorver a verdade por trás disso. Alguns nem se dão conta... Fácil saber que uma vida deve ser vivida intensamente, aproveitada ao máximo, realizar seus sonhos, essas coisas. Não precisamos mais dos esforços que fizeram no passado para descobrir isso. Essa informação nos cerca em filmes, séries, músicas, livros de auto-ajuda, livros de filosofia para leigos, religiões, psicólogos cobertos pelo seu plano de saúde. Fácil falar, difícil fazer... De repente, num certo dia, você acorda com quase trinta – quando não quarenta ou cinqüenta – e se vê tão afundado e atolado numa vida longe dos padrões de felicidade que fica insuportável viver daquele jeito. Você se sente um personagem de Beleza Americana ou Clube da Luta. Então como eles, como nos livros, você deseja “despertar”, acordar para o que realmente é viver! O problema é que aí você provavelmente irá tentar voltar ao passado, num momento em que sua vida estava melhor, em que você se sentia mais feliz. Você não quer mais acordar e se ver transformado em barata. No começo é ótimo, até você lembrar que Lester morre no final de Beleza Americana e que Jack descobre que está maluco em Clube da Luta. Percebe que já não tem mais 19 anos, que seu corpo é outro, sua cabeça é outra, que tem responsabilidades batendo à porta, que sua liberdade é diretamente proporcional à sua independência que é diretamente proporcional à sua vida profissional e financeira, que a tal da “sociedade” e do “mercado” não dá a mínima que você não é feliz.

Ten Years Gone

Dez anos se passaram e eu não só “não vivi”. Eu passei dez anos prendendo a minha vida. Ela não é diferente de quando eu tinha 29 anos, mas é uma vida igual pior, porque meus 29 anos me jogam na cara o tempo todo que eu perdi tempo. Não fiz o que queria fazer e não fiz o que deveria fazer. Não fiz nada. Não busquei meus sonhos (e me parece que eles envelheceram), não busquei minha independência. Apenas “vi a vida passar” e fui levando, como um verdadeiro morto-vivo. O que me dói não é ter passado 10 anos levando uma vida medíocre. O que me consome é continuar medíocre depois de 10 anos, sem ter ganhado nada em troca. Antes fosse como Lebowski que viveu os anos hippies intensamente e depois de anos vive quase como um mendigo. Ou pelo menos como aqueles casais novos que se mudam aqui pro condomínio, ele bem formado, ela bem formada, com carro novo parcelado em 36 vezes e amigos que freqüentam o bar da moda. Mas nem um nem outro. Pobre, sem profissão, sem formação, ainda na casa dos pais, noivo a 7 anos, com um filho a caminho, eu me pergunto (e sinto, pulsando nas minhas veias diariamente), que merda eu fiz com a minha vida e onde ela vai dar?

In The Light

Aí eu me lembro daquele trecho de Vidas Breves e lembro que vida só existe uma. Vejo um reportagem na TV sobre um rapaz de 20 anos que morreu num acidente de carro. É como um estalo. Eu tenho 29 anos, mas ainda estou vivo! Vejo a barriga da minha noiva crescendo e penso: “O que eu vou ensinar a esse garoto? Estude, seja popular e ganhe grana? Seja feliz e aproveite a vida em quanto você tem ela?” Se for verdade que os pais são exemplo para os filhos, acho que não vai adiantar muito falar... Tenho que fazer. Ser. Tenho que aproveitar enquanto ainda estou vivo, pois um dia serei comida para vermes, como disse Robin Williams em Sociedade dos Poetas Mortos. Talvez realmente deva dizer “que se dane”, botar minha idade e minha condição socio-economica na lata do lixo e aproveitar os anos que me restam! Parar de se remoer pelas paixões que não vivi, pelos sonhos que não realizei, pelos amigos que não tive, pelas experiências que não vivi. Sem medo, sem apegos. Pensar que posso morrer a qualquer momento e constatar que joguei fora a única vida que tive. Mas como se livrar da depressão, da angústia e dos problemas que me assombram nessa vida? Via ver esse o significado real da ressurreição religiosa, do renascimento filosófico. Psicológicamente falando, tenho que morrer para viver. Que assim seja.

Flávio desce do ônibus. Olha em volta e vê que está numa periferia bem pobre, com uma avenida cercada de ruas de terra e casas decadentes. Caminha, vai até o uma bar.
- Com licença, onde fica esse endereço?
O dono do bar olha e dá um pequeno sorriso. Os clientes mal-encarados do bar medem Flávio com os olhos.
- Segue reto, terceira à esquerda.
- Obrigado.
Flávio segue as instruções e chega a uma espécie de cortiço sem reboco. Entra por um corredor estreito, cheio de roupas estendidas em varais improvisados e algumas crianças bem sujas gritando e brincando. Chega à porta de uma das casas. Uma mulher jovem, com uma saia longa, uma blusa com decote bem saliente e cabelo ruim lhe engole com os olhos.
- Flávio?
- Sim. Como sabe?
- Estávamos esperando por você.
Ela abre a porta e entra, deixando que Flávio entre em seguida. A casa é simples e bem pobre. Uma senhora dá de comer a uma criança pequena. A mulher abre uma porta que dá para a sala. Flávio entra em seguida. Percebe-se que ali é uma sala comum, mas os móveis foram arrastados a fim de dar espaço para algum evento que ocorreria ali. Um casal que estava sentado em duas cadeiras se levanta. Ela parece esotérica, ele – bem arrumado – um pastor evangélico.
- Ainda bem que veio. Chegamos antes deles. Precisamos andar rápido. – disse o homem.
- Do que vocês estão falando?
- Venha. – disse a mulher esotérica, puxando-lhe pelo braço. – Quero que veja uma coisa.
Ela lhe põe de frente para um pano que cobre alguma espécie de quadro.
- Muitos anos atrás – disse ela – feiticeiros Celtas fizeram um espelho que revelava a alma da pessoa. Quem de fato ela é...
- Não estou entendendo? Você é bruxa?
- Isso não importa. Você vem procurando saber sobre a morte de Oz e acredito que o último texto dele deve ter lhe dito alguma coisa.
- De fato...
- Me diga, alguma vez você viu o rosto de Oz?
- Bom, num sonho, de cabelos compridos, num hospício...
- Nós raramente temos uma aparência verdadeira em sonhos. Além do mais, faz tempo que Oz não tem cabelos compridos...
Ela puxa o pano. Flávio se vê diante de um enorme espelho antigo.
- E daí? – pergunta, sem entender nada.
De repente, percebe que há alguma coisa por trás do espelho. Ou melhor, dentro, do outro lado. Começa a sentir um calafrio, alguma coisa mexe com a sua cabeça. Tenta lutar contra o que vê, mas seu rosto não consegue esconder a agonia. Então a verdade parece emergir.
- Eu... Eu sou Oz!
- Isso mesmo. – diz o homem. – Durante muitos anos, ele tentou firmar-se, mas alguns problemas o dividiram e ele teve que passar a vida brigando consigo mesmo.
- Eu tenho duas personalidades?
- Na realidade, três.
- Como assim?
- A briga dividiu o próprio Oz. – explicou a mulher. – Em lado bom e lado ruim. Mas todos sabemos que esses lado são uma coisa só. E tem você. O lado limitador e fraco. O medo.
- Mas ele não morreu?
- Sim, Oz está morto! – ouve-se alguém dizer.
Os quatro se viram e vêem o Sr. Luis e mais um outro casal na porta da sala.
- O que fazem aqui? Pensei que só eu pudesse profanar domínio alheio.
- Viemos fazer o que deve ser feito. Não vamos deixar você seguir com o seu plano.
- Que plano? – intrigou-se Flávio.
- Ele quer que Oz continue morto e trouxe você aqui para fazer um ritual e trancá-lo de uma vez por todas do outro lado. – explicou a mulher.
- E é isso que vou fazer.
Sr, Luis faz um sinal e o casal parte para cima das duas mulheres e do homem, tentando dominá-los, mas a mulher mística mostra um amuleto e eles se contorcem, impossibilatos de se aproximar.
- Aladiah, faça o que tem que ser feito. - grita a mulher.
- Acho que eu mesmo vou ter que dar uma jeito em vocês. - diz o Sr. Luis.
O homem de terno tira uma espécie de poção em um vidro de um dos bolsos.
- Tome Flávio. Beba isso e olhe fixamente para o espelho.
Flávio pega o vidro. Ele exita um pouco mais não sabe porque bebe toda a poção e se vira par a o espelho. Sr. Luis puxa seu cetro e revela que ele na verdade é uma espécie de espada, com uma lâmina na parte inferior.
- Sabe como se mata um anjo?
Rapidamente ele atravessa o homem com o cetro.
- Como a qualquer outro.
Ele se vira para a mulher com o decote e olha fixamente nos olhos dela. Ela fica parada e então começa a acariciar o próprio corpo. Uma espécie de líquido preto escorre dos seus olhos14. Ela parece dominada e se vira contra a mulher com ares místicos, enforcando-a.
Enquento isso, Flávio se vê no espelho. Lembra-se de como estava deprimido e essa depressão volta com toda a força. Sente-se mal pela vida que leva, sente-se mal consigo mesmo. Lembra-se que já se sentiu assim várias vezes, mas por alguma razão conseguia se "embriagar" de ilusões e viver mais um pouco. Mas dessa vez parecia não querer viver mais. E sentiu-se morrer.
- Nããããoooo! - gritou o Sr. Luis, tentando tirar Flávio do transe, em vão.
Flávio caiu no chão, morto. Pouco tempo se passou, uma música foi ouvida e ele abriu novamente os olhos. Parecia diferente.
- Flávio? - perguntou o Sr. Luis.
- Não existe mais Flávio. - disse.
- Oz? Ou Zo?
- Oz e Zo não são mais dois.
Levantou-se. Olhos o Sr. Luis nos olhos. Algo realmente estava diferente.
- Então é isso? Fui derrotado. Bem, não se pode ganhar todas.
Sr. Luis deixa a sala, calmamente. O casal que veio com ele se levanta e vai junto. A mulher sai do transe, mas o casal que o ajudou ainda estão mortos.
- Oz? - pergunta a mulher.
- Olá. Obrigado por me ajudar.
- Você está bem? Quer um copo d'água? Um café? Posso preparar pra você. Porque não se senta?
- Não posso. Tenho uma breve vida para ser vivida. Não é sempre que se retorna dos mortos...
E saiu pela porta.


Megalomaníaco? Confuso? Espere pela Saga Sem Nome na semana que vem...

Notas:
1 - Sim, Sandman.
2 - A capa do primeiro disco do Black Sabbath.
3 - "Silent Scream", do Slayer.
4 - Slipknot
5 - Mr. Natural, de Robert Crumb
6 - Contrato com Deus, de Will Eisner
7 - Taxi Driver
8 - Um Estranho no Ninho, de Stanley Kubrick
9 - Little Nemo
10 - Marilyn Manson vestido de Willy Wonka
11 - Clube da Luta
12 - Se ainda não sabe quem é o "Sr. Luís", assista Coração Satânico.
13 - Os três textos têm títulos e influências de 3 músicas do Led Zeppelin.
14 - "The Widow", do Mars Volta.

até terça! :]